quarta-feira, janeiro 09, 2008

I See a Darkness

Todas as segundas e quartas tenho inglês até às 22h. Depois de sair, faço um pequeno percurso de 20/25 minutos até casa a pé. São dos melhores minutos da semana. Não há quase ninguém nas ruas. Os carros, são poucos. O silêncio é quase absoluto. É portanto uma óptima altura para vir a pensar na vida. E, como quase sempre que ando sozinho pela rua, não dispenso a minha música. Hoje tinha comigo este I See a Darkness.

Segundo o Wikipedia, desde '95 (altura em que o site foi criado), que apenas 11 álbuns receberam 10.0 em 10.0 no Pitchfork Media - dos quais um são bootlegs do Bob Dylan, outro recebeu 10.0 e 0.0, ao mesmo tempo, outro é um EP e dois são de Radiohead, OK C. e Kid A (estes é que festejam mesmo cada vez que o Thom Yorke dá um traque). Sobram-nos seis e este é um deles. Algum exagero, é certo, mas não tanto como se pode pensar. Por exemplo, este ano o melhor álbum, segundo o referido site, é o do Panda Bear com 9.4. Pessoalmente não consigo ouvir o álbum mas é um bocado por razões pessoais. Já no site Allmusic o álbum do Bonnie 'Prince' Billy (pseudónimo de Will Oldham) apenas tem quatro estrelas e meia.

O álbum é perfeito para ouvir à noite. É por isso que aconselho a ouvirem as músicas que vou deixar aqui só quando estiver escuro. Se virem isto de dia, deixem para a noite desse dia, vai saber melhor. Em parte por o álbum ser bastante poético, suponho. Essa é, aliás, uma das razões pela qual mais ele se destaca.

A primeira música é a que dá nome ao álbum e foi o momento mais espectacular do concerto que ele deu em Abril. Encontramos, nesta música, um BPB a dirigir-se a um amigo e a apresentar-lhe o seu lado mais obscuro. De salientar que o já falecido Johnny Cash fez uma versão desta música - versão essa que tem o próprio BPB a fazer segundas vozes - para incluir no seu álbum de versões American III: Solitary Man.

A segunda chama-se Black e faz-me lembrar a música Dear Darkness do último álbum da PJ Harvey. Ou melhor, a da PJ Harvey faz-me lembrar esta. Acho que isto se deve à forma como se dirigem à escuridão. Ainda que o BPB faça uma espécie de personificação da escuridão, refere-se sempre a ela como se fosse uma pessoa, não é difícil de perceber que é dela que ele está a falar. Esta é talvez mais complexa e poética que a da PJ Harvey. Isso pode ser visto até pelo uso, no refrão, da palavra thee, que é uma forma mais poética e antiga de dizer you. Ainda que aqui me pareça que não é (só) para ficar mais bonito ou poético mas para diferenciar a pessoa amada, thee, e a escuridão, you. Curioso é o facto da PJ Harvey considerar esta escuridão uma amiga ao passo que o BPB considera-a quase uma parte dele. Autónoma, tem tendência a "atacar" in the terriblest of weather, mas impossível de destacar: «Now black and I we are together / Fairly just inseparable / And in the terriblest of weather / Our bond is incorruptible». Ainda assim, não deixa de se referir a ela como o inimigo pois tem medo que esta o destrua: «Black was decomposing quickly / This was found offensive to me / His disrespect for life's proprieties / Made me scared he would destroy me





Foram estas duas músicas que ouvi no caminho e achei que valia a pena apresentá-las aqui. Espero que esteja tudo bem, é a primeira vez que estou a usar isto. Já tinha experimentado outros sites mas acabava sempre por desistir por serem demasiado complicados.

Curiosidade (em parte para a S. poder dizer "que giro, não sabia" e assim justificar mais um post sobre música) : O Pedro Mexia - que estava no concerto deste ano na mesa mais centrada da primeira fila do Maxime - citou-o para o prefácio de um dos seus livros de poesia. Por essa razão, enviou-lhe uma cópia do livro. Will Oldham respondeu com um bilhete de agradecimento.

8 comentários:

Maria del Sol disse...

Confesso que ainda não conheço bem este senhor, só as canções dele que dele que (raramente) passam na rádio. Das duas que aqui puseste a que mais gostei foi a "Black", precisamente pela ligação à "Dear Darkness" da PJ. Mas parece-me o tipo de artista ao que é preciso dispensar algum tempo de audição para se entranhar verdadeiramente. Vou tratar disso.

Francisco disse...

é, acho que não é muito imediato. Eu fui muito pelo concerto. Antes conhecia pouco, e como o concerto foi muito bom, acabou por dar um empurrãozinho. Mas mesmo assim só conheço metade do trabalho dele, este álbum, o "Master and Everyone" e o último, "The Letting Go". E são três grandes álbuns.

Eu acho que a i see a darkness resulta muita bem ao vivo: http://www.youtube.com/watch?v=Y9d5j-QJIGU

Maria del Sol disse...

Sim, sozinho com a viola ele enche o palco. Gostei. :)

Francisco disse...

é, e lembro-me dele no concerto ter feito uma coisa fantástica que foi gravar uma sample de guitarra e depois, elevou a voz, e fez um monologo meio cantado enquanto andava de um lado para o outro sem microfone. de repente, parecia que estavamos no teatro, ou assim. :)

Anónimo disse...

Prefiro Metallica.

Francisco disse...

mas ouviste?

Anónimo disse...

Não.


:)


Só o disse para te chatear. Mas mesmo que ouvisse, a resposta deveria ser a mesma.

Francisco disse...

tou a ver que este ano, no teu aniversário, tenho de continuar a tua educação musical. isto se tiver dinheiro, claro.